Marcello Quintella e Boynard e seu cinema preto e branco

Eu conheci o Marcello de uma forma peculiar: Fui designado para levar para ele 9 troféus que um dos filmes dele, “Hooji”, tinha ganhado em um festival de cinema, já que ele não pode estar presente. Nos identificamos de imediato, a paixão pelo cinema e pelas artes em geral, além do nome quase igual. Desde então, o xará já até me convidou para a produção executiva do último filme que ele dirigiu e roteirizou.

Marcello Quintella e Boynard, 53 anos, tem formação em Jornalismo e é diretor e roteirista. Dirigiu seu primeiro curta em 2010, “Sitiados”, exibido em cerca de 50 festivais e que recebeu dois prêmios de melhor filme. Em 2011, abriu a produtora Fata Morgana Filmes, com a qual produziu e dirigiu “Hooji” (2012), que recebeu, até o momento, 51 prêmios em mais de 80 festivais de cinema em 30 países e é um dos curtas brasileiros mais premiados nos últimos anos. “O nome do dia” (2015), seu terceiro filme, recebeu, até agora, 36 prêmios. Em 2019 lançou “Depois”, que já recebeu 7 prêmios e começa agora a circular nos festivais de cinema de todo o mundo. Todos os filmes foram escritos também por ele.

Assista o trailer do filme “Depois” aqui, e leia a entrevista.

FilmInBrasil – Como começou o seu interesse profissional por cinema? Como foi isso de querer produzir um filme?

Meu interesse por cinema existiu desde que me entendo por gente. Lembro que, na infância, quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu dizia “quero fazer filme”, com a inocência de quem achava que isso fosse a coisa mais simples do mundo. Acabei trilhando outros caminhos mais pragmáticos, cursei faculdade de Comunicação Social e de lá segui outros rumos profissionais. Tardiamente, após os 40 anos, comecei a estudar roteiro e, na falta de quem se dispusesse a dirigi-los (e após tentar financiamento em diversos editais, sem sucesso), resolvi, em princípio mais ou menos intuitivamente, dirigir na raça. Foi um bom aprendizado fazer um primeiro filme ruim. Os que vieram depois já foram fruto de mais estudo sobre direção de filmes.

FilmInBrasil – Quais são hoje suas grandes influências no cinema, tanto a nível nacional como mundial e porquê?

Difícil pergunta. Tudo é influência, sob o aspecto de que todo filme traz novas possibilidades e propostas de narrativa e elas vão formando um arcabouço cinéfilo que é muito útil na hora de se pensar sobre os próprios filmes ou elaborar uma linguagem com identidade pessoal. Mais fácil falar sobre com quem eu mais me identifico por uma ou outra razão, cineastas de quem assisto algo e depois penso: “Caramba, como gostaria de ter feito esse filme!”. Isso acontece geralmente com os filmes do Almodóvar, do Tsai Ming-Liang, do Kim Ki-Duk e do Tarantino, por exemplo – só para citar os vivos. Dos que já se foram, Truffaut e Fellini estão na mesma prateleira daqueles – ou acima. Dos brasileiros, respeito bastante a filmografia do Domingos de Oliveira (grande narrador do cotidiano das coisas pequenas e imensas coisas do amor e das relações), do Cláudio Assis e de alguns filmes específicos de alguns outros cineastas, como Cacá Diegues (que fez uma obra-prima chamada “Chuvas de Verão”, que pouca gente jovem deve ter visto e recomendo bastante) e Fernando Meirelles (“Cidade de Deus” é um dos mais importantes filmes brasileiros desde sempre).

FilmInBrasil – Você está acostumado a dirigir os filmes que você também roteirizou. Como é que isso funciona na sua cabeça, na hora de escrever? Quais as vantagens e desvantagens disso, no seu entender?

Uma grande vantagem é que você tem conhecimento total sobre a proposta do roteirista e isso ajuda muito na hora de planejar a produção do filme, permitindo que o resultado final não se desvie muito do projeto inicial e ganhe uniformidade narrativa, com personagens talvez melhor compreendidos pelo diretor na hora de trabalhar na preparação do elenco, por exemplo. Isso ajuda realmente bastante e propicia um clima de confiança bastante saudável entre os atores e o diretor – o que é uma das condições para um filme ser bem sucedido artisticamente. Mas a maior vantagem de todas é que você tratará de um tema que realmente lhe importa, algo sobre o qual você efetivamente está precisando falar.

A desvantagem de se escrever um roteiro já pensando na produção é que você se vê, muitas vezes, abandonando ideias por circunstâncias que vão além de sua vontade como criador. E precisa adaptar as cenas às limitações financeiras e logísticas disponíveis.

Gostaria de ter a oportunidade, um dia, de dirigir um roteiro de terceiros. Deve ser um exercício interessante. Alguém com uma boa ideia para oferecer?

FilmInBrasil – E sobre as temáticas abordadas nos filmes, de onde elas surgem? Qual sua inspiração para os temas abordados nos seus filmes?

Os temas dos filmes geralmente se impõem. De uma forma mais ou menos direta, eles surgem em consonância com anseios e questões pessoais que estão interferindo, diretamente, na minha vida pessoal no momento em que me sento para escrever. E aí deixa de ser apenas inspiração, passa a ser uma espécie de necessidade quase terapêutica. Foi assim com os quatro filmes que dirigi. Possivelmente será assim em relação aos próximos.

FilmInBrasil – Seus filmes são sempre “dirigidos por” e não “um filme de”. Na sua cabeça, qual a diferença entre ambos, e o motivo da sua escolha.

Pergunta interessante. Primeiramente, porque acredito que cinema é arte coletiva. Apesar de o diretor estar no topo das decisões do filme, todos no set ou na pré ou pós-produção, sem exceção, participaram de forma importante para que o filme resultasse da forma que resultou. E eu gosto de trabalhar escutando todas as propostas que todos os envolvidos na produção trazem – e, quando é suficientemente boa, eu tenho a capacidade de acatá-la e mudar de ideia em relação a algum aspecto da cena. Afinal, todos ali são técnicos e artistas, não funcionários públicos. E o filme é maior que a soma das vontades dos envolvidos em sua realização.

Em segundo lugar, porque, independentemente da razão maior anterior, ainda precisaria comer muito arroz com feijão antes de ousar ter a vaidade de colocar “um filme de” num crédito de abertura. Isso só poderia valer para cineastas do porte de um Almodóvar ou Tarantino (e olha que este escreve “escrito e dirigido por”), aqueles raros realizadores em que você, assistindo cinco minutos de suas obras, é capaz de jurar que é um filme dirigido por eles mesmo sem ter lido os créditos de abertura. “Um filme de” é só para gênios, mesmo que estes entendam que cinema é construção coletiva.

FilmInBrasil – Como começou sua parceria com o ator Carlos Takeshi, afinal, já são 3 filmes seguidos com ele como parte do elenco?

O Takeshi apareceu na minha vida durante a busca de elenco para “Hooji”, curta que dirigi em 2012. Foi tamanha a afinidade que se formou entre nós dois, tanto profissional como afetivamente, que ele se tornou uma espécie de “ator-fetiche”. Gosto muito de trabalhar com ele, por seu imenso talento e, também, por sua grandiosidade como amigo, sua generosidade no set, que vai muito além das atribuições de um ator, simplesmente. Ele é o cara que veste a camisa! Espero poder ter a chance de fazer outros trabalhos com ele. O Takeshi é precioso.

FilmInBrasil – Os seus filmes sempre tem uma trilha sonora muito forte, e percebe-se uma grande preocupação com essa questão. Como é essa sua relação com a música, e qual a importância, na sua opinião, de se preocupar tanto com isso?

O som de um filme ratifica o seu tom dramático e é tão ou mais importante que a imagem em relação a uma cena. Se você assiste a um filme com defeitos de captação de imagem, mas o som está verossímil e correto em relação à cena, sua tendência é sentir que está tudo bem, e talvez nem perceba imperfeições visuais – isso não vai incomodar suficientemente para tirá-lo do filme, passa tudo como estética do realizador. O oposto não é verdade. E quando falo sobre som, estou me referindo a som direto, foley, edição de som, mixagem e trilha sonora. Sobre trilha sonora especificamente, ela é fundamental na narrativa, sublinha sentimentos, emoldura ações, cria climas emocionais importantes para a cena e o filme. Daí minha preocupação quase compulsiva em relação à trilha sonora. Em todos os filmes que dirigi, sem exceção, a pós-produção demorou mais que o previsto em função da trilha sonora, tenha sido ela original ou adquirida de terceiros. Mas isso valeu cada dia de atraso. Realmente, é algo a que me dedico com muito afinco e sugiro a quem inicia nessa coisa de fazer cinema a mesma preocupação.

FilmInBrasil – Os seus filmes sempre circulam muito pelos festivais de cinema pelo mundo afora. Que dicas você poderia dar para quem está dando os primeiros passos nessa arte, no que diz respeito a colocar o filme debaixo do braço e levá-lo para o máximo de lugares possíveis?

A distribuição do filme pelo circuito de festivais dá praticamente o mesmo trabalho que fazê-lo. É preciso estar sempre atento à abertura de inscrições e prazos e utilizar os portais de inscrição de filmes em festivais reduz muito o trabalho. As melhores são os sites Festhome, Click for Festivals e FilmFreeway. Uns 70% dos festivais se colocam em um ou outros desses três. Para acompanhar os festivais nacionais, tem o site do Kinoforum (nem sempre atualizado, mas já é uma mão na roda) e algumas páginas dedicadas à divulgação deles nas redes sociais, basicamente Facebook e Instagram. O problema deles é que não costumam ter muita continuidade e param de atualizar depois de algum tempo. Atualmente, a que está mais ativa é uma página chamada “Tô Dentro”, no Facebook. Ela tem estado atualizada nos últimos meses e, além dos festivais direcionados a produções profissionais, traz informações de vários voltados a filmes universitários, o que é interessante para quem está começando.

FilmInBrasil – Depois de 4 curta-metragens, quais são os próximos planos da Fata Morgana? Algum projeto aí na agulha que possa falar sobre?

O principal plano da Fata Morgana é que ela continue existindo, nesses tempos de destruição do setor cultural, promovida por esse governo desastroso e inominável que está aí. Para fazer filmes é necessário dinheiro e as fontes de fomento públicas estão paralisadas. Quanto tudo isso passar (não há mal que para sempre dure), temos alguns projetos, alguns dos quais já foram apresentados em alguns editais (como o curta “O Doutor não faz Ideia”, que ficou na suplência nos editais do Minc e da Riofilme três vezes!) e dois roteiros de longa com viabilidade comercial e artística. Por enquanto, estou participando de um grupo que vem desenvolvendo uma série em oito episódios, que trata, entre outros temas, da imigração japonesa no início do século XX. O processo ainda está no início, mas é muito promissor.

FilmInBrasil – Quais são os desafios, para você, de pensar sempre o próximo filme?

O maior desafio é ter coragem (e algum dinheiro, claro.). Tenho a sensação de que, no Brasil, não importa o que você já tenha feito antes, todo filme começa com as mesmas dificuldades de se fazer uma obra de estreia. O que é lamentável, demonstra a falência do país no tocante à valorização da Educação e da Cultura. Isso distingue o Terceiro Mundo do restante dos países que souberam utilizar a Arte como instrumento de difusão de seus valores nacionais e humanos e de sua identidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *